Doutor Naná...

"Lá vem a força, lá vem a magia, que me incendeia o corpo de alegria.
Lá vem a santa, maldita euforia, que me alucina, me joga e me rodopia.
Lá vem o canto, o berro da fera, lá vem a voz de qualquer primavera.
Lá vem a unha rasgando a garganta, a fome, a fúria, o sangue que já se levanta.
De onde vem essa coisa tão minha que me aquece e me faz carinho?
De onde vem essa coisa tão crua, que me acorda e me põe no meio da rua?
É um lamento, um canto mais puro que me ilumina a casa escura.
É minha força, é nossa energia que vem de longe prá nos fazer companhia.
É Clementina cantando bonito as aventuras do seu povo aflito.
É seu Francisco, boné e cachimbo, me ensinando que a luta é mesmo comigo.
Todas Marias, Maria Dominga, atraca Vilma e Tia Hercília.
É Monsueto e é Grande Otelo. Atraca, atraca que o Naná vem chegando"
(Raça, de Milton Nascimento e Fernando Brandt)


Perdemos nosso batuqueiro maior. Naná Vasconcellos, pernambucano, nascido Juvenal, percussionista maior do país, nos deixou, foi batucar no Paraíso. Seu trabalho diferenciado, que usava o próprio corpo como instrumento de percussão, que abriu possibilidades a todos/as percussionistas, foi reconhecido por brazucas e gringos. Oito vezes premiado como o melhor percussionista do mundo pela revista americana Down Beat. Tocou com Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Pat Metheny, B.B. King, Paul Simon, Gato Barbieri, Jean-Luc Ponty, Geraldinho Azevedo, Zeca Baleiro, David Byrne... só fera! De quebra, trabalhou na trilha sonora do quase oscarizado desenho brazuca O menino e o mundo, do cineasta paulista Alê Abreu. Genial!!

Poucos se ligaram, mas doutor Naná era doutor mesmo! A Universidade Federal Rural de Pernambuco lhe deu a honraria, em dezembro do ano passado, assim como havia concedido a Ariano Suassuna e Gonzagão. A iniciativa partiu do Núcleo de Estudos Afro Brasileiros (Neab/UFRPE). Merecido!



Junto com o mago Egberto Gismonti, Naná gravou Dança das Cabeças (1976), trabalho referencial na música popular brasileira. O cara transformava, qual mago, qualquer coisa em percussão. Seu corpo, vasilhas com água, risadas, o que viesse presenteava o deus do ritmo com música, da boa. Uma vez, em Porto Alegre, Naná falo, em 2010: "Quero mostrar cenários brasileiros por meio dos sons, usar a percussão como se fosse uma orquestra. O músico, quando toca, tem que procurar dizer alguma coisa, não tentar explicar o que sabe fazer".

Tocava desde cedo com o pai, um grande violonista, em Recife. Nos maracatus e bandas marciais, sua técnica foi ganhando jeito. Influenciado por tudo o que tem de melhor, bebeu em várias fontes: o clássico de Villa-Lobos, Jimi Hendrix, as raízes percussivas africanas a elementos regionais brasileiros, de Norte a Sul. Valorizava os instrumentos de percussão afro-brasileiros, Naná está para o berimbau no mesmo patamar que Giba Giba está para o sopapo.

Ele deu entrada no Hospital da UNIMED em Salvador na segunda-feira, dia 29/2, depois de um mal-estar sentido após um show em Salvador, no dia anterior. Deixa um legado musical fantástico. Atraca, atraca, o Naná vem chegando, pra grande roda de música do Paraíso... 

Pra conhecer mais o doutor Naná, visite: http://www.nanavasconcelos.com.br/

Comentários

  1. Meu caro Guto!
    Excelente homenagem que presta àquele que foi batucar nos céus. Estás concorrendo com a imprensa diária.
    Ao meu colega músico, ofereço algo que talvez conheças. Deliciei-me:
    Vale a pena usar um tempinho!
    http://cultura.estadao.com.br/blogs/radar-cultural/marcelo-adnet-faz-parodia-com-o-chico-buarque-da-direita-no-programa-ta-no-ar/

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