Caetano falou...

Não tenho tido saco para assistir televisão aberta. Essa coisa de dar IBOPE pra uma certa rede de conduta pouco recomendável em termos éticos não me seduz. No entanto, o alerta de Caetano Veloso no Altas Horas do Serginho Groissmann me faz pensar. No programa, o compositor comparou a manifestação de maior adesão, realizada no último domingo, 13/03, com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada antes da Ditadura Militar no Brasil, instaurada em 1964. Nas palavras de Caetano, "a manifestação de domingo, para mim, não foi suficientemente diferente da passeata da Família com Deus, que apoiou o golpe de 64".

Vamos rever a História pra entender a coisa toda. O nome de "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" foi dado a uma série de manifestações públicas ocorridas entre 19 de março e 8 de junho de 1964, em resposta a uma suposta ameaça comunista representada pelo discurso no famoso Comício da Central do Brasil, realizado pelo então presidente João Goulart em 13 de março daquele mesmo ano. Na data, o mandatário assinou dois decretos, permitindo a desapropriação de terras numa faixa de dez quilômetros às margens de rodovias, ferrovias e barragens e transferindo para a União o controle de cinco refinarias de petróleo que operavam no país. Além disso, houve a promessa das chamadas reformas de base. No contexto da Guerra Fria e da polarização do mundo entre EUA e URSS, tais ideias foram vistas como um passo em direção à implementação de uma ditadura comunista no país. Antes, a massiva “Cruzada do Rosário em Família”, do padre norte-americano Patrick Peyton, pároco de Hollywood e ídolo da direita, foi o ensaio-geral para as marchas anticomunistas de abril e março de 1964, fundadas no lema “A família que reza unida permanece unida”. 

Vários grupos sociais, como setores do clero (católico e protestante), o empresariado e setores políticos diversos se organizaram em marchas, levando às ruas mais de um milhão de pessoas com o intuito de derrubar o governo Goulart. A primeira das 49 marchas aconteceu no dia 19 de março – dia de São José, padroeiro das famílias – em Sampa e congregou entre 300 e 500 mil pessoas. Com o apoio da FIESP e do controverso Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais - (IPES), foi distribuído o "Manifesto ao povo do Brasil" na nefanda marcha, pedindo o afastamento de Goulart da presidência. Destaco a fala do deputado federal, latifundiário e diretor da norte-americana Willys-Overland Motors do Brasil, Antônio Sílvio Cunha Bueno (PSD): “Todos vocês nessa praça representam a pátria em perigo de ser comunizada. Basta de Jango!”.

O bacaninha é que esses caras, que caçavam comunista embaixo da cama, esqueciam que o próprio Jango era proprietário de terras... Por razões óbvias, após o golpe que depôs Jango, as tais marchas foram chamadas de "Marchas da Vitória".

Diz Karl Marx que a História se repete, uma vez como tragédia, a segunda como farsa. Há inegáveis semelhanças entre os movimentos coxinhas e as marchas da Família. Em ambos os casos, o velho medo do "fantasma comunista", a cultura do ódio, a demonização da pessoa mandatária e o forte apelo emocional são pontos comuns. Infelizmente...

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