outra mestra...

Tinha 11 anos. O local, capela do Colégio Americano. Era a primeira vez que ia a um encontro de juvenis (adolescentes, entre 11 e 18 anos) da igreja Metodista. Duas pessoas me marcaram aquela vez. Uma delas era uma mulher jovem, loira, gigantesca de alta para meus 1.58 da época. Era a pastora Iraci. Hoje a chamo de amiga. Em uma época em que questionava o ir na igreja, como bom aborrescente que se preza,  era naqueles encontros que a Ira promovia que eu descobri que a religiosidade poderia e deveria ser engajada, olhando para as mazelas do mundo, como a fome, o desequilíbrio ecológico, as guerras, a pobreza...

Naqueles encontros, ouvia as palestras dos pastores Ernesto Barros Cardoso, Orvandil Barbosa, sempre gente que estava muito à frente daquela segunda metade dos anos 70. Ainda havia uma ditadura militar no Brasil, e a Ira ousou dar espaço ao então perseguido reverendo Orvandil em seus encontros, de forma corajosa. Me lembro de uma devocional no então refeitório do IPA, em 1978, em que ele nos fez pensar sobre o desperdiçar de alimento, sobre a fome que assolava as pessoas, o que dificilmente se ouvia nas igrejas locais, salvo gloriosas e preciosas exceções.

Anos mais tarde, tive a chance de ajudar a construir alguns encontros, como a juvenília de Passo Fundo, com direito a estudos no então sítio do IE. Já havia uma certa polaridade na igreja, os grupos avivalistas bem destacados daqueles que propunham uma linha teológica afinada com a Teologia da Libertação, cuja essência marcava profundamente os (na época, claro) novos documentos da IM, como o Plano de Vida e Missão da IM, tão criticado pelos setores conservadores e avivalistas quanto desconhecido pelos mesmos... Ira conduzia os eventos com seu carisma pessoal, sempre.

Entre idas e voltas, acabamos por trabalhar, já na década de 2000, na mesma instituição. Ira e as meninas viveram uma longa temporada em Piracicaba, onde ela trabalhou ativamente na pastoral da UNIMEP. Sua volta para o IPA me entusiasmou, pois via que a instituição estava desenhando uma cara Metodista ao pé da letra. Os longos papos com Ira na pastoral me faziam retornar à juventude. Ouvir suas devocionais, quando podia, era voltar aos 11 anos. Assim como o amigo, professor e reverendo Garin nos despediu do vô Otacílio, foi a pastora Iraci que fez a cerimônia de despedida da vó Nice. Aliás, a vó adorava a Iraci.

Iraci Izolda hoje é uma senhora aposentada. Uma meninona que voltou a viver em meio à natureza, que tanto ama, entre pinheiros e quedas d'água na encantadora São Francisco de Paula. Graças à Aline, virou avó coruja. No entanto, para mim, ainda fica na retina a imagem daquela loira gigantesca, falando coisas que me calavam fundo na alma. Graças a ela, conheci alguns de meus amigos de vida inteira. graças a ela, vi que ser cristão era ter um intenso compromisso com a Vida, em todos seus eixos.

Quando Ira se aposentou oficialmente, estive no último (????) culto que ela celebrou. Tive a grata chance de tocar na ocasião, lá na pequenina igreja Paulo de Tarso. Não sei porque, mas ficou a impressão de que ainda ouvirei sua voz forte, seu jeitão cheio de carisma, a falar da Palavra, a falar das coisas da natureza, a falar da vida. Um beijão, Ira!!!

Comentários

  1. Caro Guto,

    a Iraci sempre foi uma colega muito querida porque sempre buscou uma visão sociológica da Bíblia, aplicada à prática pastoral. Tive a alegria de acolhê-la no Instituto João Wesley, como colega, na década de 1970.

    Um abraço,

    Garin

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