aos mestres, com carinho

Pois esta semana retomo as aulas no Centro Universitário IPA. Ritual de cada semestre, refazer os pactos com as novas turmas, rever os rostos do semestre passado, recomeçar mais uma vez.


Pois nesse rito de recomeço, uma disciplina me chama mais a atenção, pois foi a que me fez trilhar o caminho onde hoje me encontro na Biologia, ou pelo menos uma parte dele. Recebi a honra de lecionar, para o curso de Enfermagem, a matéria de Histologia e Embriologia, para o primeiro semestre. Pros leigos, Histologia é o estudo dos tecidos, sejam eles humanos, animais ou vegetais. Obviamente, o foco é a Histologia Humana. Já a Embriologia é mais transparente ao leigo, pois já remonta a embriões, fetos, a vida em desenvolvimento.

Aliás, modernamente, se fala em Biologia Tissular e Biologia do Desenvolvimento. Não estamos apenas focados na parte meramente de cortes micrométricos coloridos com corantes, mas outros aspectos dos tecidos. Ferramentas de Biologia Molecular, Microscopia Eletrônica, Bioquímica, entre outras, são hoje essenciais para compreender a dinâmica dos tecidos, como eles se formam, como eles reagem aos diferentes estímulos e pressões, enfim, como somos organizados.

A boa e velha Embriologia, hoje Biologia do Desenvolvimento, é essencial para entender vários processos patológicos, muitos decorrentes de malformações congênitas, causadas por erros genéticos, impactos de poluição, drogas, medicamentos, doenças e outros mais. Hoje em dia, o conceito de Biologia do Desenvolvimento abrange, para começar, a formação dos gametas, sejam os espermatozóides (em aula, simpaticamente chamados de "zoidinhos"), sejam os "óvulos". As aspas decorrem do fato de que o óvulo verdadeiramente só surge após a fertilização, ou seja, aquilo que as mulheres que não tomam pílula contraceptiva e assemelhados eliminam a cada ciclo é um ovócito secundário, uma célula que precisa do contato com a contraparte masculina para estabelecer a correta quantidade de material genético. Desenvolver também engloba o envelhecer, e a Biologia do Envelhecimento visita a Embriologia tradicional, para entender os processo que levam à senescência dos corpos e mentes.

Fui iniciado nessas artes pela professora Sônia Maria Lauer de Garcia, e seu esposo, o também professor Casimiro Garcia Fernandez, no Departamento de Ciências Morfológicas do então Instituto de Biociências da UFRGS. Hoje, o Departamento está alojado no Instituto de Ciências Básicas da Saúde. O casal me iniciou na arte de corar tecidos, sejam eles pequeninos ou maiores. Hoje, ela voltou a ser pianista, paixão primeira dela, curtindo a prole com o Casey. Ele curte a vida ao lado da Soninha, como ele mesmo chamava. Ele é um espanhol da Galícia gigantesco, com uma fala misturando o sotaque natal com o de sua vivência norte-americana da pós-graduação. Ela, uma delicada e pequenina cidadã de Sapiranga, aqui pertinho de Porto Alegre, com vivos olhos azuis ornados por uma armação que permitia ver seus orientados por cima das lentes....

Continuei meus estudos, enveredando pela Gametogênese Masculina, com a dra. Heidi Dolder, da foto abaixo. Ela me orientou no curso de Pós-Graduação em Biologia Celular, mestrado, no então Departamento de Biologia Celular do Instituto de Biologia da UNICAMP. Foi Heidi que me apresentou o microscópio eletrônico, nas versões transmissão e varredura. Para mim, é arte pura. Meu velho caderno de laboratório ostenta manchas de vários corantes e reagentes: reativo de Schiff, azul de toluidina, tetróxido de ósmio, de minhas incursões nas artes da coloração. Também a Heidi (sempre dispensava a titulação quando entre seus alunos, até hoje ela o faz) me iniciou numa arte pouco usada hoje, a de revelar e copiar fotomicrografias eletrônicas. Ainda me lembro do cheiro acre dos fixadores, reveladores, e do choque de sair da câmara escura em um corredor totalmente iluminado no segundo piso da BC/IB/UNICAMP...

Heidi tinha algumas frases típicas. Uma delas, de quando estávamos fazendo algum procedimento e queríamos alguma opinião, era fatal: "peraí, me dá uma licença que eu penso melhor com as mãos"... e ela habilmente pilotava o ultramicrótomo, o knife-maker ou o ampliador de fotos, com uma intimidade de décadas com os aparelhos. Quando ainda não se falava tanto nos efeitos do sol na pela, a branquinha Heidi estava sempre equipada com filtro solar (bem forte), um chapéu de praia e bom senso ao sair pelo câmpus para almoçar.

Poucas pessoas são tão apaixonadas pela imagem biológica em microscopia quanto ela, que para mim é a maior autoridade brasileira em Microscopia Eletrônica. Poucos são tão competentes na área quanto ela no país. Sua paixão pelo laboratório é contagiante e cativante, até hoje, quando a encontro em algum congresso, me sinto de novo um novato, sempre aprendendo com ela, nem que seja por osmose ou telepatia...


Hoje, rendo minha homenagem a essas três pessoas em especial, tão vitais à minha formação. com eles, aprendi a ser pesquisador, docente e biólogo, mas, acima de tudo, lapidei muito de meu caráter em seus fantásticos exemplos de vida. Salve, mestres!!

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