Oscarizando

Em que pese o sono inclemente, não resisto à curiosidade. Bem que a tal premiação do Oscar poderia ser num sábado, com direito a madrugadões festivos, mas não, bota no domingo, e dane-se o acordar cedo no outro dia. Nada que um banho mais friozinho cedo e o café da tia da cozinha não ajeitem...

Me chamaram a atenção dois filmes, muito menos paparicados que a avalanche de seis estatuetas para o pós-apocalíptico "Mad Max", nem a de Leonardo DiCaprio no seu desempenho de "O regresso". 

Primeiro, a estatueta de "Spotlight: Segredos Revelados". Um papel importante das artes é a denúncia, o instigar questionamentos. O filme narra com riqueza de detalhes uma investigação jornalística do jornal Boston Globe, que revelou os abusos sexuais a menores por padres da Igreja Católica. Um tema delicado, bem conduzido pelo filme, esse merece um pacote de pipoca e a atenção presa diante da telona! De quebra, Mark (Bruce Banner) Ruffalo como um dos jornalistas investigadores do time de Robby Robinson, vivido por Michael (Bruce Wayne, Beetlejuice, Birdman...) Keaton. Quem diria, Hulk e Batman juntos, denunciando os crimes de padres pedófilos. O bacana foi que, além de ter a presença do real Michael Rezendes (papel do Ruffalo), teve um discurso muito forte do produtor do filme, quando de sua oscarização no palco. Ao subir pra pegar a estatueta, o produtor do filme, Michael Sugar, disse que sua obra oscarizada "deu voz aos sobreviventes". Tá certo, é o papel da arte! Ainda disse mais, num recado ao ilustre torcedor do San Lorenzo: "Papa Francisco, é hora de proteger as crianças e restaurar a fé." Falou tudo!

Como latino-americano e conesulista, fico muito feliz com o prêmio justo para "Bear Story". Por sinal, está aqui, para apreciação:


Primeira película chilena que ganha um lustroso carecão metálico, o filme de Gabriel Osório Vargas é uma belíssima parábola sobre a ditadura que assolou o país andino e que ronda outros tantos (inclusive aquele da costa atlântica da América do Sul, urubuzado por bolsonazis e aecins). O curta de maneira brilhante se vale da realidade cruel dos animais encarcerados nos circos, seu tratamento cruel, e nos transporta ao lamentável período da história do Chile, após o nefando golpe de Estado de 1973. Lembre que o pinochetazo deu início a uma sistemática violação dos direitos humanos sob o comando do general e assassino de plantão Augusto Pinochet, com ajuda de vários governos (inclusive da ditadura brasileira da época) até o final dos anos 80. Até hoje muitos lutam por justiça e sofrem pela morte e/ou desaparecimento de seus familiares.

A história carrega, portanto, um subtexto interessante de denúncia à opressão ditatorial, o que faz com que a animação não seja um mero conto de fadas. O velho e entristecido urso usa o realejo para denunciar o perigo da ditadura que ronda alguns países e que já pesou em seu país.

Fico feliz que dois filmes com peso social tão grande sejam reconhecidos pela Academia de Hollywood. Arte é isso. Ela tem seu papel estético, sem dúvida. Ela faz viajar. Ela também denuncia e anuncia. Parabéns, Chile! Parabéns, galera do Boston Globe!



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