"A casa-grande surta quando a senzala vira médica"

Com essa frase, a conta do Facebook da garota Bruna Sena, primeirona em Medicina na Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, nada mais que a vaga mais concorrida da Fuvest – 2017, o vestibular mais concorrido do país, espalha sua alegria ao mundo, à rede.

Bruninha tinha tudo pra dar xabu na vida e na prova. Negra, pobre, tímida, filha de mãe trabalhadora, cujo pai "caiu no mundo", estudante da rede pública em um estado atucanado... Bruna será a primeira da família a ir para a formação superior! Fez e o fez em grande estilo, passando em uma das melhores faculdades de Medicina de uma das maiores universidades do país. Não é pouca porcaria!!

O apelo da mãe lembra que Bruninha será o "1% negro e pobre no meio dos brancos e ricos da faculdade". Abandonada pelo marido, Dinália Sena sustenta a menina Bruna desde que ela tinha 9 anos, com um salário modesto de operadora de caixa de supermercado. 

Bruna acredita que será bem recebida pelos colegas e tem na ponta da língua a defesa de sua raça, de cotas sociais e da necessidade de mais oportunidades para os negros no Brasil. "Claro que a ascensão social do negro incomoda, assim como incomoda quando o filho da empregada melhora de vida, passa na Fuvest. Não posso dizer que já sofri racismo, até porque não tinha maturidade e conhecimento para reconhecer atitudes racistas", diz a simpática bixete. 

Ela ainda afirma que "alguns se esquecem do passado, que foram anos de escravidão e sofrimento para os negros. Os programas de cota são paliativos, mas precisam existir. Não há como concorrer de igual para igual quando não se tem oportunidades de vida iguais." No Brasil, ainda se vê um certo mal estar das elites BBB - babacas, brancas e boçais, ao ver a filha da operadora de caixa passando na USP, assim como quando a empregada se acomoda no avião para aquela viagem tão sonhada...são coisas da elite batedora de panelas, que não seguiu as recomendações da saudosa dona Marisa...

Os números assustam. São 75,58 candidatos para cada vaga. Tá bom pra ti? Bruna seguiu a cartilha: se preparou muito, ao longo de toda sua vida escolar, não aquela frescura de estudar de véspera. "Ela só tirava notas 9 ou 10. Uma vez, tirou um 7 e fui até a escola para saber o que tinha acontecido. Não dava para acreditar. Falei com o diretor e ele descobriu que 'tinham trocado' a nota dela com um menino chamado Bruno", orgulha-se a mãe. Sei...

A cabeceira de Bruna tem a companhia de George Orwell, assim como ver na telinha a instigante série "Grey’s Anatomy". Uma bolsa de estudos no cursinho dos estudantes da USP fez a diferença, diante do hiato entre os conteúdos do vestibular da FUVEST e o Ensino Médio atucanado da rede pública de São Paulo. No último ano do ensino médio, manhã na escola estadual Santos Dumont, noite no cursinho. Ainda tem os bons samaritanos de plantão. Uma amiga da mãe sempre dava livros para ela. Uma vez, essa amiga colocou R$ 10 dentro de um livro para comprarmos comida e escreveu: ‘Bruna, vence a vida, não deixe que ela te vença, estude'".

E porque a medicina? Bom, eu responderia "e porque não?" Nas palavras da moça, "claro que não sei ainda qual especialidade pretendo seguir, mas sei que quero atender pessoas de baixa renda, que precisam de ajuda, que precisam de alguém para dar a mão e de saúde de qualidade", declara. 

Negra, pobre, sem a presença paterna, oriunda da rede pública. E vencedora. Os crespos de Bruninha, presos no laboratório, farão parte da paisagem dos corredores da Medicina da USP/Ribeirão. O orgulho feminino, africano e brasileiro, de uma gente que ri quando deve chorar, que mostra que é preciso ter força, raça, gana, manha, graça e sonho sempre, estará ali, presente na pesada jornada de estudos, e, um dia, retornará ao povo pobre, na forma de um cuidado diferenciado com a saúde dos que mais precisam.

Parabéns, Bruna!!!! Te agarra no Grey (o livro, não o seriado) e manda ver!!!! Precisamos de Brunas na saúde, cooom certeza!!!


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