De Nichelle a Whoopi, passando pelo Dr. Martin Luther King Jr

Nichelle Nichols. O nome faz qualquer nerd trekker bater palminhas e sorrir, pensando naquela mulher negra classuda, com dois diplomas superiores, oficial de Comunicações da USS Enterprise. A tenente Nyota Uhura, oficial da nave, ajudou a fantástica série a romper paradigmas e minar preconceitos. A série durou três temporadas, gerando uma legião de adoradores até hoje apaixonados pelas aventuras da tripulação da USS Enterprise. O programa nunca reproduziu estereótipos negativos, com forte caráter multicultural,  problematizando e extrapolando até o universo os conflitos sociais, religiosos, políticos e raciais. Devido a essa característica peculiar e questionadora, a série se transformou em uma das maiores e mais importantes franquias da história. A convite de Gene Roddenberry, produtor do lendário seriado, a cantora, de linda voz jazzística, pupila de ninguém menos que Duke Ellington, e atriz Nichelle Nicholls, trocou a Broadway pelo papel da tenente Uhura. O nome da personagem vem do swahili uhuru, que significa liberdade (pausa pra lágrima emocionada).

A série estreou numa época cascuda, vamos combinar. Star Trek é lançada em pleno ápice da luta pelos direitos civis americanos. A guerra do Vietnã assassinava aos milhares jovens americanos, todos os dias, do outro lado do mundo. Brancos americanos linchavam e assassinavam jovens negros em seus quintais. O podicrê dos hippies conflituava em termos de prática com o Partido dos Panteras Negras.

Na música, o Free Jazz, já rompido com a estrutura musical do próprio jazz, ainda era o tema das lutas pelos direitos civis. As big bands já haviam embranquecido, convertendo-se em bandas de rock and roll eletrificadas. As igrejas convertiam a soul music no gospel. Ainda haviam placas “White Only”. O líder cristão Dr. Martin Luther King Jr. desafiava a América racista ao falar que tinha um sonho. Malcom-X radicalizava, cada um ao seu jeito. E veio Uhuru.

Formada em matemática e física, a tenente esculachou os estereótipos de representar mulheres pretas somente como escravas, empregadas ou com trejeitos hipererotizados. Aliás, deu uns pegas com toda a categoria e classe no capitão Kirk! Sim, em 1968, o primeiro beijo de um branco numa negra pela televisão norte-americana. Um beijo digno, bonito, que até hoje mexe os corações trekkers.

Só que a barra pesou. Quando terminava a primeira temporada, Nichelle decidiu que iria desembarcar da Enterprise. Enlouquecido e apavorado, Gene Roddenberry pediu que ela pensasse com calma. Daí o destino aprontou a primeira. Ela foi a um jantar, cheio de personalidades. Um pedido para um autógrafo. E lá vai Nichelle autografar.

Bom, o fã não era um fã qualquer. Ela viu a figura bonita do Dr. Martin Luther King. Dr. King a recebeu com seu típico sorriso e disse: “Pela sua cara você não imaginava que eu assistia seu programa. Madame Nicholls, sou seu maior fã e meus filhos não perdem um capítulo do seu programa”. Bem de fã a moça!!!

Aí, a notícia triste. Em meio ao animado papo com mútua tietagem, Nichelle contou que sairia do seriado. O sábio Dr. King disse: “Você não pode fazer isso”! Martin Luther King mostrou para Nichelle Nichols que o poder de influência de Uhuru extrapolava a série, ia além da espaçonave. Ela inspirou jovens afrodescendentes, como ninguém o fizera. Deu certo, como sabemos. Gene Roddenberry, quando  soube do papo, disse a frase que ficaria famosa: “Deus abençoe Dr. Martin Luther King! Alguém está percebendo o que eu quero fazer”.

A coisa não ficou só por aí. Sobre as pessoas jovens influenciadas, uma menina de nove anos, ao ver aquela mulher preta bonita, bem vestida, diálogos sem vícios ou aspectos caricatos, líder, charmosa e inteligente, chamou a família para ver TV, alucinada. Ela queria mostrar a sua família que havia uma mulher negra, ali, na ponte de comando da famosa espaçonave. Era a primeira vez que essa criança, e milhares de outras, viam uma mulher negra que não era uma escrava, uma prostituta ou empregada em um programa de TV. Anos mais tarde, essa mesma menina se tornou uma atriz famosa e carismática. Seu nome, Whoopi Goldberg. Aliás, Whoopi viveu uma personagem na derivada da franquia Star Trek: The Next Generation, aquela do comandante Piccard, do androide Data, também genial. Na pele de Guinan, uma mulher da raça El-Auriano, era a barman e conselheira de membros da tripulação da nave USS Enterprise. Os El-Aurianos, na série, são um povo de vida longa e muita sabedoria.

A personagem ficcional vivida pela grande Nichelle Nichols chamou os olhos do Dr. Martin Luther King Jr e da menininha Whoopi Goldberg pelos mesmos motivos. Vida longa e próspera a todos e todas que fazem que as minorias cheguem onde nenhuma delas jamais esteve!!

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