Charlie Hebdo, pensando prós e contras

Pois é...ainda dando eco à ação dos extremistas contra o pessoal do Charlie Hebdo. Dá o que pensar, é um longo papo de boteco! Pessoalmente, gostava do trabalho deles, em especial do Wolinsky. Ele influenciou muito os cartunistas brasileiros dos anos 80, como Angeli, Glauco, Laerte, Adão Iturrusgaray, entre outros. Um traço meio grosseiro, um humor ácido pra caramba.Eles extrapolavam muitas vezes, mas, no frigir dos ovos, um bom trabalho de um humor moleque e abusado!

Tem uma situação interessante, me lembro da charge da ministra Christiane Taubira, negra, como macaca. Se você olha a coisa sem contexto, cai de pau nos caras, com certeza. Na verdade, a sacanagem era pra cima da ultra-direitista Frente Nacional, a.k.a. família Le Pen, da deputada Anne-Sophie Leclère e do jornaleco de direita chamado Minute. O pasquim nazista aí havia chamado dona Christiane de macaca ("singe", em francês). O Charlie Hebdo fez da charge da macaca uma denúncia disso, da ação sacana do Minute, da podre da Anne-Sophie Leclère, uma das cabeças-ocas da extrema-direita francesa. No cartum, tem uma bandeirinha no canto esquerdo é uma referência à FN, coloquei o link abaixo. Não é um endosso. Taubira ficou inclusive grata com a estranha ajuda (http://www.diariodocentrodomundo.com.br/wp-content/uploads/2015/01/taubira-charlie.jpg).

Tem o outro lado da coisa. Aqui e lá. A Veja e catefada brazuca se acharam donas dos defuntos franceses e clamam liberdade de imprensa graças ao sangue alheio. Só que é aquela liberdade ao estilo Veja, William Waack, Sheherazade, essa turminha aí. a Globo trata a coisa com o entusiasmo de quem fala de uma copa Libertadores, de um jogo contra a Argentina, coisas do tipo. Por outro lado, a turma de mme. Leclère usa o atentado para embasar suas ideias anti-islâmicas, reforçando a onda de malucos que ostentam cartazes com mesquitas proibidas. E claro, malhar muçulmanos, os judas da vez, pode...

Ser muçulmano na França hoje é algo difícil, posto a carga de preconceito jogada na turma dos filhos de Maomé. Muitos africanos das ex-colônias francesas foram para lá atrás de vida decente, trabalho e estudo, levando, claro, sua religião, suas mesquitas e minaretes, e seu Corão. Os nazifranceses de plantão seguem criminalizando os islamitas, assim como negavam o Holocausto judeu na II Guerra. Se é por aí, e o bispo da Universal do Sétimo Dígito, ops, Reino de Deus, que chutou a santa? E os doidos que andaram quebrando imagens sacras em Minas? São tão insanos quanto os irmãos Kouachi, aqueles caras que invadiram o CH e balearam Deus e todo mundo. A direita e seus aliados midiáticos colocam todos os muçulmanos no mesmo saco de gatos, incluindo aí a imensa maioria de gente boa que reza nas mesquitas, e que segue de verdade o Corão e entende o que é MESMO o tal Jihad...

A diferença é que atacar judeus e cristãos é, para a grande mídia, algo inadmissível. Muçulmanos, esses sim podem ser atacados, e se reclamarem, é falta de respeito, é falta de liberdade de expressão. Quando temos grupos neopentecostais como a Record, no Brasil, com o poder midiático, e outros pelaí, dá pra entender essa distinção de pode-atacar, não-pode-atacar. Nesse ponto, sejamos justos com o Hebdo, que atacava o papa, os cristãos fundamentalistas, judeus e muçulmanos. Pessoalmente, vejo que o respeito e a piada devem ser, via de regra, irmãos. Saber rir de si mesmo é uma virtude. Saber o limite entre a risada e a sacanagem também. As charges de Angeli sobre temas religiosos sempre foram geniais, e nunca vi ninguém querendo fuzilar o grande cartunista paulistano....Olha lá: http://4.bp.blogspot.com/-0J940qKeXFg/T1JDZIWyy-I/AAAAAAAABeI/ATPtXnA2JKg/s1600/Tirinha_Laerte.jpg

Sobre a reação da direita francesa, me aproprio para responder das sábias palavras da consulesa francesa em São Paulo, mme. Alexandra Baldeh Loras, uma francesa de origem muçulmana e judaica: “Após os ataques, tenho escutado: “Temos que matar esses terroristas”. Vamos matar como eles mataram? É essa a solução? Sou contra a pena de morte. Gostaria de conhecer as reivindicações deles. Por que se tornaram loucos assim? Por que caíram no extremismo? Para eles, talvez nós é que sejamos terroristas. Quantas atrocidades foram cometidas nas ex-colônias? Pegaram argelinos, marroquinos, senegaleses para lutar pela França e defendê-la para ser um país livre. Aprendi na escola que eram voluntários. Hoje, documentários mostram que não tiveram escolha, as famílias eram ameaçadas. Há um lado da história da França muito obscuro, que ela não quer assumir. A pátria mãe francesa parece ter esquecido os 400 anos de escravidão e 300 de colonização. A França ainda não se desculpou pela dores imensas que causou na África. Precisa se aceitar como sociedade multicultural e multirracial. E hoje ela não quer assumir esses filhos. Eu me coloco entre eles. Nos sentimos rejeitados. E me refiro aos africanos, aos árabes, aos asiáticos e aos judeus também. A todas as minorias.”

Dá o que pensar. E, mais uma vez, vemos que não estamos diante de um filme desses bem maniqueístas, dos tempos de guerra-fria. É realidade, com seus jeitos, nuances e aspectos. Salve Allah, salve Javé, salve Jesus de Nazaré, salve Oxalufã, salve todo e qualquer nome de Deus, em todas suas formas. E salve os que não acreditam Nele/s também, ora essa!

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