Lanceiros Negros II - a desumanidade de um governador

Um dos episódios mais sórdidos da longa Guerra dos Farrapos é a emboscada de Porongos. Ali, o corpo de Lanceiros Negros foi dizimado pelas genocidas tropas do Duque de Caxias. Nas tropas de lanceiros, só havia brancos entre os oficiais superiores. Os negros eram os melhores domadores de cavalos da província. Sua perfeita disciplina os tornavam o terror dos imperiais. A participação decisiva dos Lanceiros Negros foi ressaltada pelo republicano Giuseppe Garibaldi em sua biografia escrita por Alexandre Dumas: “soldados de uma disciplina espartana, que com seus rostos de azeviche e coragem inquebrantável, punham verdadeiro terror ao inimigo” ou ainda “…mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, …em cujas fileiras aprendi a desprezar o perigo e combater dignamente pela causa sagrada das nações…” (GARIBALDI,Giuseppe, em FAGUNDES, M. Calvet, História da Revolução Farroupilha. EDUCS.1989.p. 9). 

Eles lutaram por dez anos, não por dinheiro ou impostos, mas pela liberdade. Pela dignidade.

Em 14 de novembro de 1844, traídos pelo general Canabarro, desarmados, descalços, foram traiçoeiramente entregues a sanha historicamente genocida de Caxias. David Canabarro, junto a Antônio Vicente da Fontoura, ambos escravocratas, negociavam a paz com Caxias. A promessa de liberdade para os combatentes negros depois de 10 anos de abnegadas e vitoriosas lutas deles nas batalhas pesava muito nas negociações. Os lanceiros foram praticamente rifados pela "negociação" de Canabarro e Vicente da Fontoura.

Corta para 2017. Na quarta-feira, ia buscar Karina e Clara na bisavó desta, no Centro Histórico. Me causou surpresa o ribombar de explosões e a maciça presença de brigadianos (n.doA.: pros de fora do RS, brigadiano é o elemento da Polícia Militar do RS, aqui chamada de Brigada Militar), inclusive a cavalo. Neto de guaibeiro (n. do A.: quem ouve a Rádio Guaíba, emissora local e tradicional na cobertura de notícias e futebol), ligo na emissora e ouço o relato de guerra. Descubro que o prédio onde estava alojada a Ocupação Lanceiros Negros fora sitiado, com uso de bombas de efeito moral. 

O presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores Jeferson Fernandes, foi preso durante a ação policial na reintegração de posse do prédio, dando uma volta de camburão (n.do A: em portoalegrês, é o carro tipo caminhonete das forças policiais, em especial militares) e solto pelos seus algozes. Nas suas palavras: "eu não sei porque fui preso e porque fui solto". Entrevistado após se recompor diante do trauma, afirmou que "me derrubaram, me arrastaram no meio da tropa, torceram meu braço e me mandavam calar a boca o tempo todo. Depois que se está algemado, não tem porque esfregar a cara dos outros no chão e levar cassetete como levei". Ah, o governador ainda o acusou de ter "incitado a desordem e o descumprimento da lei". O deputado tentava mediar a situação, bancar o deixa-disso, pois havia sido solicitada liminar para garantir a permanência das famílias no local. Muitas com idosos, crianças e gestantes.

Quanto à atuação da Brigada Militar, o governo afirma que teria cumprido “com correção” a decisão judicial. Bom, a palavra para "certo" em inglês é a mesma para "direita".... O deputado, conforme nota divulgada pelo Piratini, “a pretexto de defender causas sociais, age para angariar dividendos políticos e midiáticos”. Assim posiciona-se o governo do Estado. De forma mais humanitária, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RS), o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RS), a Ajuris, vários políticos e setores da sociedade, se organizam para recolher donativos para as famílias desabrigadas. Infelizmente, como era de se esperar, a reação contra o arbítrio não conseguiu provocar nenhum tipo de autocrítica no governo, ao que indica a nota assinada pelo chefe da Casa Civil, Fábio Branco.

Paradoxalmente, a mesma Brigada Militar que prendeu uma grossa corrente a um veículo para arrancar a porta do prédio da ocupação, destaca que “a depredação de bens públicos é inaceitável”, ainda que não pontue como as famílias, que ocuparam um edifício abandonado há cerca de 10 anos, montaram nele uma estrutura comunitária que incluía creche, berçário, biblioteca e uma cozinha compartilhada, teriam depredado o patrimônio. Realmente, Grouxo Marx estava correto ao expressar o que achava da expressão "inteligência militar", qualificando-a como contradição, pelo menos neste caso!

No texto da turma do gringo, o governo também acusa as famílias de “interesse ideológico e político” por não aceitar as alternativas apresentadas pelo poder público. Se vamos levar em conta a condição desumana em que os coitados foram desovados em uma noite fria, num ginásio sem banheiro ou cozinha, com alimentação precária... depois eles que são os intransigentes! Em julho de 2016, durante audiência pública na Câmara de Vereadores, os moradores da Lanceiros davam suas razões. “Na periferia, é só tráfico, violência. Eu tinha de pedir licença para o traficante para levar meu filho no colégio. Aqui no centro, ele vive muito bem, a gente vive bem. Eu não quero mais isso para meu filho”, relatou à época uma das moradoras da ocupação. 

Já a alternativa apresentada pelos moradores ocupantes ao governo (e reiteradamente rejeitada), era para transformar o edifício em uma casa de acolhimento para famílias em situação de vulnerabilidade. Pra que proteger gente pobre, né José Ivo? Agora, mais um elefante branco deteriorando suas condições no centro. Mais famílias jogadas na rua, em época de frio e umidade. O arbítrio botando suas garras, um governador covarde, jogando força policial contra crianças, velhinhas e gestantes, num local organizado pelos ocupantes. E, novamente, os lanceiros negros são jogados ao destino por forças imperiais...os chacais de Sartori fazem as vezes de Canabarro e Vicente da Fontoura em nossos dias, barbarizando quem deviam proteger. Enquanto isso, nossa vaquinha continua sua jornada rumo aos brejos, graças ao desmando desses caras...

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