Demarcação Já!!!

Pessoal, divido o trabalho que uma galera da maior qualidade fez, em nome da demarcação das áreas indígenas no país. "Demarcação Já" é parceria do querido Chico César, direto de Catolé para o mundo, e Carlos Rennó, conhecido da galera por "Escrito nas Estrelas", aquela que a Tetê Espíndola defendeu num festival e se sagrou vencedora.

A galera da gravação inclui Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Djuena Tikuna, Zeca Pagodinho, Zeca Baleiro, Arnaldo Antunes, Nando Reis, Lenine, Elza Soares, Lirinha – José Paes de Lira, Leticia Sabatella, José Celso Martinez Corrêa, Tetê Espíndola, Edgard Scandurra, Zélia Duncan, Jaques Morelenbaum, Dona Onete, Felipe Cordeiro, Criolo, Marlui Miranda, BaianaSystem, Margareth Menezes, Céu, e a participação de Eduardo Viveiros de Castro, André Vallias e Ailton Krenak. Gente de várias vertentes da MPB, do rock ao samba, do teatro, defensores da causa indígena.

Bom, falar de demarcação de terras indígenas no Brasil é falar de algo que está parado desde que o presidente Michel Temer assumiu o Planalto. Segundo o Censo de 2010, 817 mil indígenas vivem no país. Historiadores estimam que haviam 3 milhões em 1500, quando os portugueses desembarcaram por aqui pela primeira vez. Desde 29 de abril de 2016, nenhum decreto homologando demarcação de terras foi assinado por Temer. Há 72 áreas à espera da assinatura do presidente. 

A própria Fundação Nacional do Índio (FUNAI) também tem sofrido, com corte de cargos e verbas e fechamento de unidades. Aliás, o presidente da FUNAI foi vítima de sórdido processo de fritura, culminado com sua demissão. Pra ter uma ideia de quão bizarra está a coisa toda, o ministro da Justiça, Osmar Serraglio (PMDB), decidiu demitir o presidente da Funai, Antônio Fernandes Toninho Costa, para substituí-lo por um representante da bancada ruralista no Legislativo. Bacana, a raposa cuidando do galinheiro.... 

A demissão foi exigida pelo líder do governo no Congresso, deputado André Moura (PSC-SE), porque o presidente da entidade responsável pela gestão das terras indígenas não aceitou nomear 25 pessoas indicadas por ele desde que a nova direção da fundação tomou posse. A decisão política de demitir Antônio Costa foi tomada por Serraglio no Dia do Índio, para espanto do presidente da Funai. Os 25 nomes impostos por André Moura para serem contratados pela Funai não são de carreira do órgão. O deputado ainda exigiu que fossem nomeados nas áreas de finanças e de gestão da fundação, coisa pouca e bem intencionada... Alguns nomes que o ministro deve confirmar vão ocupar superintendências em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, Roraima e em Mato Grosso do Sul. Chame o ladrão!!

A entidade também convive com cortes orçamentários. No ano passado, o orçamento executado foi de R$ 531 milhões – praticamente o mesmo valor de 2015 (R$ 534 milhões). Descontada a inflação, a perda foi de quase 11%. Em setembro do ano passado um decreto estipulou um corte de 38% dos recursos para custeio e investimento na Funai.

E assim, segue a saga do indígena brasileiro. Sem demarcar suas áreas para uma vida digna. Ouvindo pérolas, como a que aquele ser inominável do Congresso Nacional proferiu, não o mineiro, mas o milico maluco: "onde tem índio, tem riqueza embaixo dela". E segue o olho gordo e sequioso de riquezas que dormiam, quando o índio era senhor do continente. E segue o aviltamento aos verdadeiros filhos da terra brasilis. 



“Demarcação já” 
(letra de Carlos Rennó e música de Chico César):

Já que depois de mais de cinco séculos
E de ene ciclos de etnogenocídio,
O índio vive, em meio a mil flagelos,
Já tendo sido morto e renascido,
Tal como o povo kadiwéu e o panará
– Demarcação já!
Demarcação já!
Já que diversos povos vêm sendo atacados,
Sem vir a ver a terra demarcada,
A começar pela primeira no Brasil
Que o branco invadiu já na chegada:
A do tupinambá –
Demarcação já!
Demarcação já!
Já que, tal qual as obras da Transamazônica,
Quando os milicos os chamavam de silvícolas,
Hoje um projeto de outras obras faraônicas,
Correndo junto da expansão agrícola,
Induz a um indicídio, vide o povo kaiowá,
Demarcação já!
Demarcação já!
Já que tem bem mais latifúndio em desmesura
Que terra indígena pelo país afora;
E já que o latifúndio é só monocultura,
Mas a T.I. é polifauna e pluriflora,
Ah!,
Demarcação já!
Demarcação já!
E um tratoriza, motosserra, transgeniza,
E o outro endeusa e diviniza a natureza:
O índio a ama por sagrada que ela é,
E o ruralista, pela grana que ela dá;
Hum… Bah!
Demarcação já!
Demarcação já!
Já que por retrospecto só o autóc
Tone mantém compacta e muito intacta,
E não impacta, e não infecta, e se
Conecta e tem um pacto com a mata
–Sem a qual a água acabará –,
Demarcação já!
Demarcação já!
Pra que não deixem nem terras indígenas
Nem unidades de conservação
Abertas como chagas cancerígenas
Pelos efeitos da mineração
E de hidrelétricas no ventre da Amazônia, em Rondônia, no Pará…
Demarcação já!
Demarcação já!
Já que “tal qual o negro e o homossexual,
O índio é ‘tudo que não presta’”, como quer
Quem quer tomar-­lhe tudo que lhe resta,
Seu território, herança do ancestral,
E já que o que ele quer é o que é dele já,
Demarcação, “tá”?
Demarcação já!
Pro índio ter a aplicação do Estatuto
Que linde o seu rincão qual um reduto,
E blinde-­o contra o branco mau e bruto
Que lhe roubou aquilo que era seu,
Tal como aconteceu, do pampa ao Amapá,
Demarcação lá!
Demarcação já!
Já que é assim que certos brancos agem:
Chamando-­os de selvagens, se reagem,
E de não índios, se nem fingem reação
À violência e à violação
De seus direitos, de Humaitá ao Jaraguá;
Demarcação já!
Demarcação já!
Pois índio pode ter iPad, freezer, TV, caminhonete, “voadeira”,
Que nem por isso deixa de ser índio
Nem de querer e ter na sua aldeia
Cuia, canoa, cocar, arco, maracá.
Demarcação já!
Demarcação já!
Pra que o indígena não seja um indigente,
Um alcoólatra, um escravo ou exilado,
Ou acampado à beira duma estrada,
Ou confinado e no final um suicida,
Já velho ou jovem ou – pior – piá.
Demarcação já!
Demarcação já!
Por nós não vermos como natural
A sua morte sociocultural;
Em outros termos, por nos condoermos –
E termos como belo e absoluto
Seu contributo do tupi ao tucupi, do guarani ao guaraná.
Demarcação já!
Demarcação já!
Pois guaranis e makuxis e pataxós
Estão em nós, e somos nós, pois índio é nós;
É quem dentro de nós a gente traz, aliás,
De kaiapós e kaiowás somos xarás,
Xará.
Demarcação já!
Demarcação já!
Pra não perdermos com quem aprender
A comover-­nos ao olhar e ver
As árvores, os pássaros e rios,
A chuva, a rocha, a noite, o sol, a arara
E a flor de maracujá,
Demarcação já!
Demarcação já!
Pelo respeito e pelo direito
À diferença e à diversidade
De cada etnia, cada minoria,
De cada espécie da comunidade
De seres vivos que na Terra ainda há,
Demarcação já!
Demarcação já!
Por um mundo melhor ou, pelo menos,
Algum mundo por vir; por um futuro
Melhor ou, oxalá, algum futuro;
Por eles e por nós, por todo mundo,
Que nessa barca junto todo mundo “tá”,
Demarcação já!
Demarcação já!
Já que depois que o enxame de Ibirapueras
E de Maracanãs de mata for pro chão,
Os yanomami morrerão deveras,
Mas seus xamãs seu povo vingarão,
E sobre a humanidade o céu cairá,
Demarcação já!
Demarcação já!
Já que, por isso, o plano do krenak encerra
Cantar, dançar, pra suspender o céu;
E indígena sem terra é todos sem a Terra,
É toda a civilização ao léu
Ao deus­-dará.
Demarcação já!
Demarcação já!
Sem mais embromação na mesa do Palácio,
Nem mais embaço na gaveta da Justiça,
Nem mais demora nem delonga no processo,
Nem retrocesso nem pendenga no Congresso,
Nem lengalenga, nenhenhém nem blablablá!
Demarcação já!
Demarcação já!
Pra que nas terras finalmente demarcadas,
Ou autodemarcadas pelos índios,
Nem madeireiros, garimpeiros, fazendeiros,
Mandantes nem capangas nem jagunços,
Milícias nem polícias os afrontem.
Vrá!
Demarcação ontem!
Demarcação já!
E deixa o índio, deixa o índio, deixa os índios lá.”

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